sábado, 24 de setembro de 2011

Lúcio Alves de Barros*

A greve dos professores de Minas Gerais que se arrasta por mais de 108 dias, além de grave já se tornou inaceitável. A leviandade, a irresponsabilidade e a despolitização do debate levada a efeito pelo Governo Anastasia (PSDB) criaram condições que são no mínimo humilhantes, cansativas, vexatórias e sérias para os professores, estudantes e pais. Digo professores porque estou falando de uma categoria que, por natureza, trabalha com a interação e cujo resultado é a formação do outro, sempre estranho e, por vezes hostil. Levanto, neste caso, três questões que não tarde produzirão efeitos perversos de grandes dimensões.

Em primeiro vale dizer do “jogo de palavras”: o governo diz que já paga o famoso piso salarial aos docentes. Os professores mais de uma vez, tal como fizeram os policiais em 1997, mostraram (até rasgaram) contracheques, falaram em jornais, televisão, blogs, sentaram-se à mesa e mostraram que não recebiam o piso (Lei 11.738, de 2008, que exige o pagamento do piso de R$ 1.187,97) fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O governo Anastasia simplesmente chamou os professores de mentirosos. Se é possível ser um bom professor sendo mentiroso e recebendo mais ou menos dois salários, ou não estamos no Brasil ou muitos acreditam na fala do governo. E é óbvio que não teríamos professores pesquisando nas universidades federais e estaduais. Além de chamar os docentes de mentirosos, o governo simplesmente tratou de deslegitimar, degradar, deteriorar e jogou ao chão a categoria que, para os tucanos, além de pedintes não sabem negociar. Essa humilhação dos mestres não vai sair impune. Todos nós vamos pagar amargamente e, sinceramente, não vejo o por que de toda retórica em torno da “educação como liberdade” ou “direito”, haja vista que o próprio governo já decretou o seu fim.

A segunda questão diz respeito à truculência, vigilância, crueldade e intransigência governamental. Além do recurso ostensivo de vigiar quem não tem nada a esconder, o governador e seus avatares armaram os policiais e bateram forte nos professores. A situação é e foi humilhante. Presenciei professores correndo como galinhas, gritando como loucos, chorando como irmãs de caridade e apanhando como ladrões em porta de viatura. Não era preciso todo aquele aparato na praça docemente chamada de “Liberdade”. Foi um exagero sem fim. O efeito perverso já é percebido: professores adoecendo, cansados (porque greve é coisa séria), ansiosos, deprimidos, ressentidos e podem esperar um bom tempo de educação em luto e sem significado. O governo foi de encontro a tudo que ensinamos e defendemos junto aos alunos, como a honestidade, a liberdade, o respeito à diferença, à diversidade, ao cuidado com o outro. O governo, definitivamente, esqueceu que a profissão docente é repleta de emoções e que lidamos constantemente com crianças e adolescentes em formação. O governo simplesmente desautorizou os professores e retirou a autoridade política da categoria, tratando-os como “casos de polícia”, marginais em desespero e pobres sofisticados capazes de manter o sacerdócio por mais ou menos dois salários mínimos.

Em terceiro e último é preciso apontar para outras consequências desse movimento. Alunos atrasados e pais enfurecidos eu acho difícil. Já se sabe que “só se ensina a quem deseja aprender”. Há tempos a comunidade não faz a mínima questão de participar dos rumos da educação e os seus filhos já estão mais do que entupidos de redes de relacionamento na internet e de baladas na calada da noite. Neste sentido, os professores estão solitários em um campo de batalha cujo rei aposta que o “vencedor ficará com as batatas”. Incrível e inacreditável tratar docentes como mecanismos de gestão que podem ser apertados quando as contas começam a ir para obras eleitoreiras. O gastar menos como justificativa não significa apostar os tostões na educação. Não é balela a ideia de que é na educação que se encontra a saída para as pequenas e grandes crises que perpassam, inclusive, países mais civilizados que o nosso. O governo, ao contrário, vem demonstrando com toda sua boniteza que não. Soltou os policiais que ele mesmo forjou nos moldes americanos e decidiu passar por cima do Supremo Tribunal Federal e da organização sindical dos trabalhadores da educação. Na covardia, ainda vem usando o nosso dinheiro na mídia e alardeado que as coisas estão como sempre estiveram. A consequência são professores atônitos, medrosos, enganados, humilhados... Forjamos uma educação com base na violência pura e simples, uma educação que dá vergonha e sem vergonha na cara. E podem esperar como efeito perverso uma categoria triste no trabalho, à deriva nos corredores escolares e, por ressonância, estudantes enfurecidos, pais amargurados e um governo ainda contente.


Lúcio Alves de Barros

Enviado por Lúcio Alves de Barros em 23/09/2011
Código do texto: T3237219

4 comentários:

  1. Aproveite o feriadão pra visitar meu blog -
    Que tal esse texto?
    Deixe lá um comentário.
    Muito obrigado,
    Ci.

    Era uma vez, um país que disse ter conquistado a independência
    energética com o uso do álcool feito a partir da cana de açúcar.
    Seu presidente falou ao mundo todo sobre a sua conquista e foi
    muito aplaudido por todos.
    Na época, este país lendário começou a exportar álcool até para
    outros países mais desenvolvidos.
    Alguns anos se passaram e este mesmo país assombrou novamente
    o mundo quando anunciou que tinha tanto petróleo que seria um
    dos maiores produtores do mundo e seu futuro como exportador
    estava garantido.
    A cada discurso de seu presidente, os aplausos eram tantos que
    confundiram a capacidade de pensar de seu povo.
    O tempo foi passando e o mundo colocou algumas barreiras para
    evitar que o grande produtor invadisse seu mercado.
    Ao mesmo tempo adotaram uma política de comprar as usinas
    do lendário país, para serem os donos do negócio.
    Em 2011, o fabuloso país grande produtor de combustíveis,
    apesar dos alardes publicitários e dos discursos inflamados de
    seus governantes, começou a importar álcool e gasolina.
    Primeiro começou com o álcool, e já importou mais de
    400 milhões de litros e deve trazer de fora neste ano um recorde
    de 1,5 bilhão de litros, segundo o presidente de sua maior
    empresa do setor, chamada Petrobras Biocombustíveis.
    Como o álcool do exterior é inferior, um órgão chamado ANP
    (Agência Nacional do Petróleo) mudou a especificação do álcool,
    aumentando de 0,4% para 1,0% a quantidade da água, para
    permitir a importação. Ao mesmo tempo, este país exporta o
    álcool de boa qualidade a um preço mais baixo, para honrar
    contratos firmados.
    Como o álcool começou a ser matéria rara, foi mudada a
    quantidade de álcool adicionada à gasolina, de 25% para 20%,
    o que fez com que a grande empresa produtora de gasolina deste
    país precisasse importar gasolina, para não faltar no mercado interno.
    Da mesma forma, ela exporta gasolina mais barata e compra mais
    cara, por força de contratos.
    A fábula conta ainda que grandes empresas estrangeiras,
    como a BP (British Petroleum), compraram no último ano várias
    grandes usinas produtoras de álcool neste país imaginário,
    como a Companhia Nacional de Álcool e Açúcar, e já são donas de
    25% do setor.
    A verdade é que hoje este país exótico exporta o álcool e a
    gasolina a preços baixos, importa a preços altos um produto
    inferior, e seu povo paga por estes produtos um dos mais altos
    preços do mundo.
    Infelizmente esta fábula é real e o país onde estas coisas irreais
    acontecem chama-se BRASIL.

    Célio Pezza - Escritor.

    www.ceciliafidelli.blogspot.com

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  2. Boa Tarde.
    Passei para visitar e gostei de seu blog.
    Bjos

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  3. Poema para minha irmã de sonho: Marili T. Vanso

    O repouso é a nossa defesa.
    O sono nos aproxima de Deus.
    Tarefas longas e difíceis,
    somadas à sublimes esforços,
    só pode ser bom.
    Na hora certa,
    virá a recompensa.
    Generosa,
    volumosa,
    intensa.

    Cecília Fidelli.

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  4. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    MARILI

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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